Livros e resistência: a coragem do Livreiro de Cabul
- Fernanda Maciel de Souza Aranha
- 25 de set. de 2023
- 3 min de leitura
Afinal, para que serve um livro? Para alguns, é um meio de incentivar a criatividade e a imaginação; para outros, uma representação de culturas, de vivências e de ideias. Mas há quem veja os livros como um instrumento de resistência. Essa é a história real contada em “O Livreiro de Cabul” (2006), de ÅSNE SEIERSTAD, jornalista norueguesa, cujo protagonista, Sultan Khan (pseudônimo de Shah Muhammad Rais), enxergou, nas páginas dos livros, esperança diante dos rigorosos regimes políticos que marcaram o Afeganistão.
No final da década de 1970, os comunistas, com apoio da ex-URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) assumiram o poder no Afeganistão. A fim de inaugurar um projeto revolucionário, o novo governo passou a proibir o consumo de determinados conteúdos, entre eles, livros que retratassem ideias contrárias às do partido.
Ainda assim, fascinado pela diversidade de histórias e pontos de vista que uma sociedade pode construir, Sultan persistiu com suas livrarias espalhadas por Cabul, capital do Afeganistão, nas quais acumulava diversos textos proibidos pelo regime. O livreiro acreditava que tinha um dever para com os demais, isto é, providenciar aquilo que as pessoas queriam ler, apesar das investidas contra seu sonho.

Algum tempo após a instauração das novas regras, um cliente delatou Sultan, que acabou preso por um ano e obrigado a ver seus exemplares sendo queimados pela polícia. O cárcere aprisionou o livreiro, mas não as suas ideias, que se fortaleceram em favor da difusão da cultura e da história do país. Assim, foi novamente levado à prisão, da qual foi somente liberado por meio de suborno.
Em 1989, os comunistas caíram e o Afeganistão ficou nas mãos dos mujahedin, guerrilha islâmica que lutava contra os soviéticos. Posteriormente, iniciou-se, em 1992, a guerra civil, que apenas terminou em 1996 com a vitória do Talibã, grupo extremista e fundamentalista, cujo objetivo é a imposição radical da Sharia[1], “um conjunto de valores éticos, religiosos e leis baseados nas fontes do Islam.” (KUS; SANCHEZ, 2021, p. 313).
Na visão do Talibã, a lei e a ordem deveriam ser restabelecidos por meio de um regime rígido, para que, enfim, o país e os afegãos fossem consagrados. Dentre as regras impostas, estava a proibição de várias representações da cultura afegã, a exemplo da música e dos livros. Diante do crescimento das atrocidades, Sultan tomou uma postura mais discreta e continuou mantendo cerca de dez mil livros escondidos em sótãos espalhados por Cabul, a fim de evitar qualquer represália do grupo.

Apesar disso, o livreiro, ao ser chamado para conversar com o então Ministro da Cultura, foi avisado de que estava sendo procurado e correndo sério risco de vida. A resistência de Sultan, porém, manteve-se; enquanto sua família fugiu para o Paquistão, ele continuou em Cabul para não abandonar as livrarias e seu projeto.
“Ele não podia deixar o Talibã ou outro regime qualquer destruir ainda mais a alma afegã. Além disso, tinha um plano ou sonho secreto para a sua coleção. Quando o Talibã deixasse o poder e o Afeganistão tivesse um regime confiável, ele prometeu a si mesmo doar a coleção inteira para a biblioteca pública depenada da cidade, onde outrora havia centenas de milhares de livros nas prateleiras.” (SEIERSTAD, 2006, p.39).
Após o ataque às Torres Gêmeas, em setembro de 2001, o Afeganistão sofreu mais uma invasão externa; dessa vez, por parte dos Estados Unidos, sob o governo de George W. Bush. Com a queda do Talibã, Sultan voltou a administrar as livrarias sem restrições, exibindo a coleção de livros nas prateleiras e na vitrine.
Em um país que, desde o século passado, enfrenta constantemente instabilidade política e extremismos, a manutenção das artes revela-se um ato de coragem, de persistência das ideias. A história é construída constantemente pelo passado e pela cultura; e, quando estes são reprimidos e destruídos, destrói-se a consciência de um povo.
Porém, Sultan Khan não permitiu que sua consciência fosse destruída. O sonho do livreiro pela preservação das riquezas artísticas e culturais do Afeganistão perdurou. Em meio à barbárie, Sultan fez dos livros sua arma de resistência contra aqueles que ousaram aniquilar a alma afegã.
[1] É necessário esclarecer que a aplicação da Sharia varia de país para país, uma vez que suas regras têm variadas interpretações.
[2] SEIERSTAD, Åsne. O Livreiro de Cabul. Rio de Janeiro: Record, 2006. p. 39.
Referências bibliográficas
KUS, Atilla; SANCHEZ, Wagner Lopes. Sharia, religião e secularização. Interações: cultura e comunidade, v. 16, n. 2, p. 310-324, 14 out. 2021. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/interacoes/article/view/25942/18843. Acesso em: 30 mai. 2023.
SEIERSTAD, Åsne. O Livreiro de Cabul. Rio de Janeiro: Record, 2006. p. 39.
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